Dulce Morais, pesquisadora associada do Cosmopolíticas do Cuidado, mestra em Saúde Pública pela USP e antropóloga no Instituto Socioambiental, publicou artigo em que contrasta as narrativas de moradoras de São Gabriel da Cachoeira (AM) sobre o assassinato de mulheres indígenas com os registros documentais que o Estado mantém sobre essas mortes.
Para a pesquisadora, a escassez de documentação médico-legal sobre a violência sexual associada a homicídios é um fator importante na invisibilização da violência. Ao produzir versões sobre os assassinatos de mulheres indígenas, os documentos definem limitações sobre o reconhecimento da violência.
A moradoras de São Gabriel da Cachoeira, por sua vez, fazem suas leituras dos corpos e da ingerência do Estado nas investigações em que se baseiam os registros, afirmando que a situação das roupas, marcas de resistência e outros elementos apontam para a violência sexual que não entra para os registros oficiais.
Dulce realizou trabalho de campo em São Gabriel da Cachoeira em 2020, durante a pandemia de COVID-19, e destaca como “como os documentos estatais participam da produção de versões sobre os corpos e as violências, sendo atravessados por disputas, interpretações, e limites técnicos e institucionais”.
Após analisar declarações de óbito emitidas na cidade entre 2010 e 2016, sublinhando que muitas delas não continham informações sobre as circunstâncias da morte, Dulce selecionou três assassinatos de mulheres como foco de sua pesquisa. As três mulheres assassinadas tiveram seus nomes preservados no artigo, em que são chamadas pelos nomes fictícios de Francisca, Kátia e Sarah. Apenas o inquérito referente à morte de uma delas, Kátia, estava acessível no momento em que a pesquisadora tentou localizar os registros.

A leitura do inquérito do assassinato de Kátia, entretanto, permitiu fazer aproximações com os atestados de óbito de Francisca e Sarah, contrastando com o que diziam suas familiares. Dulce destacou, ainda, que os corpos das três foram localizados em espaços públicos, o que “implica outras dinâmicas de experenciar a cidade e sua fragilidade social”.
MORAIS, Dulce. Violência e cuidado para além da morte: gestão de corpos e documentos em São Gabriel da Cachoeira. Cadernos de Campo (São Paulo – 1991), São Paulo, Brasil, v. 35, n. 1, p. e237021, 2026. Disponível em: https://revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/237021. Acesso em: 7 ago. 2026.






