Pesquisadora do Cosmopolíticas publica capítulo sobre mulheres negras que tiveram seus atendimentos no SUS marcados pelo racismo
O texto “Cor visível, corpo desumanizado – experiências de mulheres negras na ciência” foi publicado por Rafaele Queiroz, pesquisadora do Cosmopolíticas do Cuidado e doutoranda em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), como capítulo no livro “Racismo e Saúde: Perspectivas Antropológicas Contemporâneas”. O convite à leitura é feito, aqui, pela própria autora, que recriou na escrita a experiência de violência racial e de gênero contadas a ela por mulheres negras da sua família e da comunidade amazônida de Purupuru, sendo que as reflexões têm como ponto central a morte da irmã de Rafaele, Gabriele Queiroz, vítima de negligências no atendimento em saúde quando buscou ser recebida como gestante.
Neste texto, convido vocês para uma conversa de varanda, na qual eu e minhas semelhantes dialogamos sobre a assistência médica e sobre como elas vivenciaram essa relação durante a gestação, o parto e o puerpério no Amazonas. Trata-se de uma etnografia feminista encarnada, construída a partir da escrevivência, que recusa a imparcialidade como valor epistemológico e inscreve o meu corpo como parte constitutiva do campo e da produção do conhecimento antropológico.
Essa escrita é situada, atravessada por vínculos de parentesco, afeto, luto e dor, e se constrói a partir das “conversas de varanda” e das caminhadas cotidianas realizadas com mulheres da minha família e da comunidade do Purupuru, distrito do município de Careiro/AM. Esses espaços ordinários de sociabilidade tornam-se dispositivos etnográficos capazes de revelar narrativas silenciadas sobre gestação, parto e puerpério. Ao privilegiar o diálogo e a experiência próxima, evidencio o descompasso entre a categoria política de violência obstétrica e as interpretações êmicas das minhas semelhantes, que frequentemente naturalizam práticas violentas como procedimentos médicos normais.
A escrevivência de Gabriele Queiroz, mulher negra amazônida minha irmã, ocupa lugar central nesta reflexão. Sua morte, decorrente de uma sucessão de negligências, deslocamentos forçados e procedimentos desumanizados durante o parto. A pergunta “O que fizeram com o corpo desta mulher?” atravessa o meu texto como eixo ético e político, denunciando o apagamento da pessoa gestante nos registros médicos e a negação de sua humanidade.
As narrativas das demais mulheres minhas parentas reforçam a recorrência de práticas como toques vaginais excessivos, episiotomias sem consentimento, humilhações verbais e o controle do corpo por meio do medo e do silenciamento. Esses relatos evidenciam que a violência obstétrica opera de forma interseccional, articulando raça, gênero, classe, território e acesso desigual às políticas públicas de saúde.
Defendo que a antropologia produzida a partir da escrevivência não é apenas uma escolha metodológica, mas um posicionamento político antirracista. Não se trata de conciliar, descrever ou narrar de forma neutra, mas de denunciar. E afirmar, assim, o particular como chave analítica.
QUEIROZ, Rafaele. Cor Visível, Corpo Desumanizado ? experiências de mulheres negras e racializadas na assistência médica.. In: Rosana Castro, Ana Cláudia Rodrigues. (Org.). Racismo e Saúde: Perspectivas Antropológicas Contemporâneas. 1ed. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2025, v. 1, p. 100-129. Disponível em: https://fiocruz.br/livro/racismo-e-saude-perspectivas-antropologicas-contemporaneas Acesso em: 20 abr 2026.