Pesquisadores e parceiros do Cosmopolíticas do Cuidado publicam no dossiê do BMJ sobre mudanças climáticas na Amazônia

Por Camila Montagner

O British Medical Journal, publicação britânica voltada para pesquisadores e profissionais da saúde, lançou sua edição temática anual sobre mudanças climáticas com artigos dos pesquisadores do Cosmopolíticas do Cuidado reunidos no dossiê que tem como foco a emergência climática e a Amazônia. Elizângela Baré, pesquisadora do projeto socióloga e doutoranda na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, é coautora de um artigo do dossiê que também é assinado por José Miguel Nieto Olivar, professor da USP e coordenador do Cosmopolíticas e Eliene Rodrigues Putira Sacuena, diretora do Departamento de Atenção Primária à Saúde Indígena do Ministério da Saúde. Também publicaram no dossiê Gabriela di Giulio, professora da FSP-USP que atua junto à coordenação do Centro de Estudos da Amazônia Sustentável e Leandro Giatti, professor da FSP-USP e pesquisador do projeto Cosmopolíticas.

Gabriela, que participou de um workshop com editores da BMJ e pesquisadores da USP, em 2024, articulou um conjunto de artigos com enfoque em saúde global e emergência climática.  Junto com José Miguel, Danielle Rached, Deisy Ventura – ambas dos Programa de Pós-Graduação Saúde Global e Sustentabilidade – e outros colegas que participaram da iniciativa, a ideia foi propor um dossiê “que possibilitasse  dar visibilidade para perspectivas analíticas e resultados de pesquisas nesse movimento de tensionar a produção de conhecimento científico em um momento bastante crítico, marcado pelos impactos das mudanças climáticas e de outras crises em curso, em que as apostas são altas e urgentes mas os comprometimentos políticos e ações necessárias não ganham aceleração”, conta.

Em coautoria, José Miguel, Elizângela e Putira refletem sobre possibilidades de aprendizagem para futuras crises político-sanitárias e climáticas a partir da experiência das mulheres indígenas do Rio Negro na organização de respostas de enfrentamento à pandemia de COVID-19. Para Elizângela, que com outras mulheres indígenas organizou ações de prevenção, testagem e cuidados de saúde durante a pandemia de COVID-19 a campanha “Rio Negro, nós cuidamos” não se deu para garantir direitos, mas para resguardar a vida.

A experiência da pandemia, vivida coletivamente, nesse sentido difere significativamente das mudanças climáticas que, diz Elizângela, está “sendo vivenciada em fatias”, sendo que os modos coletivos de enfrentá-las ainda estão em construção. “São as associações de mulheres indígenas que promovem a discussão das mudanças climáticas no território. As mudanças climáticas são dores que afetam a vida delas com impactos no corpo, mente e território. Em virtude disso, elas estão procurando a cura”, conta ela.

Leandro, que coassina um artigo com Gabriela e outros autores, destaca a necessidade de pensar as mudanças climáticas e sua relação com a saúde a partir de uma abordagem socioecológica. “Na Amazônia, assim como em outros sistemas socioecológicos, é muito presente a força das condicionantes naturais”. Ele dá como exemplo o rio que é considerado como mais-que-humano. “O que a gente chama de território líquido é um território condicionado às nuances do rio. Nas longas secas o rio se torna inclusive condicionante da saúde, e aí esse conjunto, pessoas comunidades, trabalhadores da saúde estão interagindo com o rio, gerando processos, respostas, aprendizagens”. Essa abordagem, baseada na teoria geral dos sistemas, se faz atenta ao modo como o rio interage com outros atores do território. Assim, vemos como é fundamental compreender as respostas desses atores: rio, ribeirinhos, indígenas da Amazônia –  que devem fazer parte das proposições políticas, do que se espera do cuidado em saúde no território em questão.

Os artigos são de acesso aberto e podem ser lidos aqui e aqui. O projeto “Cosmopolíticas do cuidado no fim-do-mundo: gênero, fronteiras e agenciamentos pluriepistêmicos com a saúde coletiva”, contemplado com financiamento Fapesp Jovem Pesquisador em 2021 sob o processo de número 06897-9.

Referências:

DI GIULIO, G.M.; MORSELLO, C.; GIATTI, L.L.; El KADRI, M.R.; JACAÚNA, T.; HACON, S. Health systems in the Amazon need to be reimagined for a more sustainable future. BMJ; 391: r1925. 2025.

OLIVAR, J.M.N.; COSTA, E.S., SACUENA, E.R.P.  Indigenous women’s leadership in the Amazon: how lessons learned from covid-19 can strengthen our response to the climate crisis. BMJ; 391: r2139. 2025.