Por Camila Montagner
A Reunião de Antropologia da Saúde (RAS) de 2026, que acontece em Porto Alegre (RS) exibe três trabalhos com imagens ligados ao Cosmopolíticas. A pesquisadora Natalia Farias, doutoranda na Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP) participa da mostra fotográfica com o ensaio “Do Ajuri na Roça à bebida sagrada: Cuidado e saúde na perspectiva de uma família indígena do Alto Rio Negro”. Cristina T. Ribas, José Miguel Nieto Olivar, Soila Mar e Valentina Rodrigues também estão na programação com o vídeo “’Vida fácil’ Trabalhadoras sexuais na catástrofe gaúcha”. O doutorando em saúde pública (FSP-USP), Michel Furquim, e o coordenador do Cosmopolíticas, o professor (FSP-USP) José Miguel Nieto Olivar, também terão seu filme “Cuidado e alianças: existências trans em terreiros amazônicos” apresentado na mostra audiovisual do evento.
Natalia conviveu com a família de Dona Jacinta na comunidade Balaio, em São Gabriel da Cachoeira (AM), acompanhando momentos cotidianos e fazendo as fotos selecionadas para a mostra na RAS. “Na seleção das imagens busquei contar uma história de momentos que conectam a importância do trabalho e dos alimentos que vem da roça, do conhecimento encarnado com as plantas, e, sobretudo, das relações de cuidado envolvidas no preparo familiar para a cerimônia da bebida sagrada”, diz Natalia. A cerimônia contou com a participação de Dona Jacinta, que fez a pintura em cada um; da sua cunhada, Dona Kátia, que acendeu a fogueira, e Seu Tiago, que ofertou o rapé e a bebida sagrada aos presentes. Uma caixinha de som reproduzia uma gravação com ensinamentos e cantos do pai de Dona Jacinta com seu irmão mais velho enquanto os presentes rodeavam a fogueira.



Inicialmente preocupada em não expor e nem trair a confiança das pessoas com quem pesquisa, Natalia propôs usar a câmera no tempo em que passou no Balaio quando foi fotografada por Carlinhos, filho de Dona Jacinta, que pediu o seu celular para registrar o momento em que ela usava um maçarico – um galho de árvore criteriosamente escolhido para socar o açaí e obter o vinho da fruta – que tinha acabado de aprender com ele a manusear.
“Em experiências anteriores fazendo registros fotográficos, eu frequentemente me percebia deslocada, tomada pela sensação de invadir a intimidade das pessoas com quem pesquiso. Em uma noite específica Dona Jacinta pediu para que eu fizesse mais registros com a câmera, ela se referia especialmente a uma situação em que não havia registrado conversas com seu irmão. Então, a partir dessa demanda explicita, passei a fotografar com mais frequência”, remonta. As dez fotografias tiradas e selecionadas por ela para a mostra são articulações entre a leitura dela e o que a própria família entende como cuidado com a saúde, com o corpo e a manutenção das suas tradições. “Esse detalhamento das imagens não me parece melhor que o texto, mas diferente: Na assertividade das cores e formas, abre-se espaço para fabulações que conectam a imagem a inícios e finais singulares, conhecidos apenas pela imagem e o interlocutor”.
As protagonistas do vídeo “’Vida fácil’ Trabalhadoras sexuais na catástrofe gaúcha” enfrentavam as dificuldades e a incerteza que a enchente no Rio Grande do Sul trouxe para a vida delas em 2024. Os áudios e os vídeos que compõem o trabalho foram resultado de articulações que Soila Mar, do Núcleo de Estudos da Prostituição (NEP) de Porto Alegre, foi fazendo a partir de relações que ela já cultivava com algumas das trabalhadoras sexuais atingidas. “Foi muito difícil entrar em contato com elas. Eu já estive em algumas das casas e foi difícil ver como ficou depois da destruição”, conta Soila.
Por meio de algumas trabalhadoras que ela já conhecia, ela também ficou sabendo de outras, que acabaram ficando sem celular por conta da enchente. Alguns dos lugares alagados que aparecem nas imagens eram locais de trabalho, outros eram as casas onde as trabalhadoras viviam. A avenida Senador Sagado Filho, no centro de Porto Alegre, foi um ponto de atuação das profissionais que acabou sendo bastante atingido. Imagens feitas com o celular das trabalhadoras sexuais em Canoas, Santa Rita e Eldorado também mostram o quanto elas foram afetadas pela enchente que tomou os bairros onde elas viviam.
A articulação com as trabalhadoras sexuais que ficaram com seus locais de trabalho ou casa sob a água também se deu na mobilização de ajuda monetária que chegasse diretamente a elas para a compra de gás, comida, medicamentos, e até suprir parte dos recursos necessários para aluguéis das que ficaram impedidas de voltar para a casa. Entre as trabalhadoras que participaram do filme “algumas não tiveram a opção de mudar de casa. Mas uma delas não voltou para a casa antiga, por conta do trauma”, diz Soila.
Já o vídeo “Cuidado e alianças: existências trans em terreiros amazônicos” foi realizado a partir da pesquisa de Michel Furquim e José Miguel Nieto Olivar com Pai Jairo e Mãe Samara, bem como seus filhos e filhas de santo, no terreiro em Tabatinga (AM). Ele primeiro conheceu Pai Jairo e Mãe Samara por conta de imagens feitas em uma pesquisa anterior, por José Miguel Nieto Olivar, no mesmo local. Quando foi fazer sua própria pesquisa, Michel foi desde o início carregando sua câmera com o objetivo de fazer um registro audiovisual para ser disponibilizado para as pessoas com quem trabalha.
O interesse dele em fazer trabalho de campo no terreiro também se articula com demandas específicas das pessoas com quem ele faz pesquisa, pois “Pai Jairo me pediu que em todas as Giras e festas eu grave a entrada dele e de suas/seus filhas/os de Santo no barracão”. Isso porque Pai Jairo tinha um interesse especial nessas imagens, que “eram uma forma de acompanhar quem esteve presente, mas também a organização da entrada da família, que possui uma hierarquia por tempo de casa”.
Terreiros de Benjamin Constant, Manaus e Iquitos também foram registrados pelas lentes de Michel. Alguns eventos da região, como a Parada da Diversidade da Tríplice Fronteira, também aparecem nos vídeos e fotos realizados pelo pesquisador. “Através dos vídeos, por exemplo, dá para ter uma pequena noção do tamanho do Rio Amazonas, do céu naquela região, da extensão das matas, assim como da força do tambor, das gargalhadas, do girar das saias, dos pontos cantados e da coletividade”, conta.


VI Reunião de Antropologia da Saúde de 22 a 24 de abril de 2026
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
Mostra de filmes
Quarta-feira, 22/04: 18h – 21h
Local – Sala Abacateiro – Centro Cultural
“Vida Fácil” Trabalhadoras Sexuais na Catástrofe Gaúcha
20m 30s
Núcleo de Estudos da Prostituição (NEP) e Cosmopolíticas do Cuidado no Fim-do-mundo (FSP/FAPESP)
José Miguel Nieto Olivar, Soila Mar, Cristina T. Ribas, Valentina Rodrigues
Cuidado e Alianças: Existências trans em terreiros amazônicos
13’20”
Michel de Oliveira Furquim dos Santos e José Miguel Nieto Olivar
Mostra Fotográfica
Sala Nogueira – Centro Cultural
Visitação: Quarta-feira, 22/04 a Sexta-feira, 24/04 — 09h – 21h
Do Ajuri na Roça à bebida sagrada: Cuidado e saúde na perspectiva de uma família indígena do Alto Rio Negro
Natalia Farias Silva






