Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP trata de possibilidades de reformulação e reorganização do campo da saúde

Em ensaio, José Miguel Nieto Olivar, do departamento de Saúde e Sociedade da FSP-USP, atenta para como ganhou visibilidade em outubro de 2022 no 13º Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, ABRASCO,  a dificuldade de tratar das insuficiências do sistema de saúde pública que acreditamos ser o melhor.

O maior espaço para declarações a favor da diversidade e de ações afirmativas para promoção da inclusão no campo da saúde coletiva não esconde as dificuldades que ele vem enfrentando ao lidar com as implicações da presença e da atuação dos que não cabem ou não são circunscritos pelo funcionamento consolidado do sistema de saúde que conhecemos. Em seu Ensaio publicado na revista Saúde e Sociedade, o professor e coordenador do projeto Cosmopolíticas do Cuidado no Fim-do-mundo, José Miguel Nieto Olivar, argumenta que essa dificuldade se deve a um persistente esgotamento do campo que pede por reformulações e reorganizações mais contundentes.

A persistência de modelos de cuidado que se organizam por tendências que pretendem se filiar à lógica moderna, excluindo outros conhecimentos terapêuticos, como formas de cura comunitária,  saberes ancestrais e práticas indígenas,  ainda que isso tenha se mostrado insuficiente e distante de modo pouco sutil na pandemia de COVID-19, segue sem ser interrompida. Diante dessa indefensabilidade incutida na estrutura e no funcionamento cotidiano do sistema de saúde em questão, o autor busca possibilidades de desmontagens radicais no pensamento de Denise Ferreira da Silva, que se inscreve no pensamento feminista negro, nas disputas em torno do cuidado apontadas por Maria Puig de la Bellacasa e na proposição cosmopolítica de Isabelle Stengers. Ao recorrer a essas autoras, ele faz questões sobre o que pode levar esse sistema a se reorganizar e se reformular, tomando como ponto de partida as palavras da ativista antirracista, feminista, médica e diretora da Anistia Internacional – Brasil que em 2022 no congresso da ABRASCO disse que seria preciso não defender o indefensável modo de funcionamento atual SUS.

Mais do que acomodar necessidades outras recolocando os que até então não se encaixavam dentro de sua estrutura e funcionamento, o campo se vê diante “de presenças sem representação, sem a mediação ou tradução necessária de cientistas ou gestores, e que se localizam para além da posição de ‘usuários’”, argumenta Olivar. Ele se pergunta que possibilidades se abrem ao considerarmos que não basta experimentar a saúde pública com uma certa desconfiança e distância, como tem acontecido.

Para dar um passo em direção a novos modos de atuação e cuidado no campo da saúde colocando questões sobre possibilidades outras para a saúde pública, Olivar retoma o que aprendeu com as mulheres rionegrinas durante a pandemia de COVID-19 ao acompanhar em processos etnográficos a organização feita por elas da campanha Rio Negro, nós cuidamos. O autor entende que essa experiência deu a ver que seria possível se aproximar desse campo levando em conta a diferença e a alteridade sem que o preço disso seja tornar impossível que agentes políticos centrais por si mesmos passem a participar do campo da saúde a partir de desacordos sobre o que significa o cuidado e sobre como o conhecimento e o cuidado estão relacionados.

OLIVAR, José Miguel Nieto. “Não defender o indefensável”: elementos para uma abordagem cosmopolítica e antirracista da saúde pública no fim do mundo. Saúde soc. v. 34, n. 3. 2025. Disponível em: http://ref.scielo.org/6gppjm. Acesso em: 02 Mar 2026.