Por Camila Montagner
De um total de 327 estudos publicados pelo periódico Saúde e Sociedade entre 2022 e 2024, apenas sete se dedicaram à racialidade na saúde no que diz respeito especificamente à população negra. O recorte da pesquisa apresentada em artigo, apesar de se voltar para a revista que foi a segunda em sua área de especialidade que mais publicou sobre a temática racial em saúde, retornou resultados que indicam um preterimento das questões raciais na publicação acadêmica em questão, que pouco abordou o assunto no período analisado.
Levando em conta que na atualidade a reorganização do SUS está em processo e é vista como uma necessidade, os autores José Farias dos Santos Junior e Maria Cristina da Costa Marques buscaram com o estudo “fortalecer uma perspectiva crítica à racialidade”. Tal fortalecimento pode ser considerado, nesse sentido, um passo em direção a possibilidades de atuação da saúde coletiva no combate à produção de iniquidades e violências raciais.
Os sete estudos analisados pelos autores do artigo, publicados também na revista Saúde e Sociedade, foram considerados “leituras consistentes em torno da dinâmica de produção das iniquidades raciais em saúde, na manifestação do racismo estrutural através de mecanismos que dizem respeito ao racismo institucional que opera no SUS”. Entretanto, a pesquisa conclui que essas publicações não deram devida atenção à compreensão da racialidade como sendo um aparato político e epistêmico que opera uma relação de poder constituindo e mantendo sujeitos racializados em condição de subalternidade.
Os autores se valem dos trabalhos da sanitarista Mônica Mendes Gonçalves e da filósofa Denise Ferreira da Silva para compreender a racialidade de modo a considerar um problema que a raça seja tomada como uma categoria social naturalizada. Para Santos Júnior e Marques, “não só estas categorias constroem condições de exclusão e subalternidade, mas justamente estas próprias são (re)construídas no momento que são mobilizadas para tal tarefa”.

A análise conduzida pelos autores se baseou em leituras dos sete trabalhos na íntegra e levou dois anos para ser concluída. O financiamento desta pesquisa se deu na modalidade de iniciação científica realizada na Faculdade de Saúde Pública da USP por José Farias sob orientação de Maria Cristina, contou com recursos do Programa Unificado de Bolsas da USP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Esta última fonte de financiamento se deu por meio de bolsa vinculada ao projeto Cosmopoliticas do Cuidado no Fim-do-mundo*.
DOS SANTOS JUNIOR, José Farias; MARQUES, Maria Cristina da Costa. Por uma abordagem crítica à racialidade na saúde coletiva: um debate sobre a produção de conhecimento em relações raciais na saúde. Saúde e Sociedade, São Paulo, Brasil, v. 35, n. 2, 2026. Disponível em: https://revistas.usp.br/sausoc/article/view/249470. Acesso em: 29 maio. 2026.






